São Paulo e Santa Catarina sofrem 52% do impacto do tarifaço dos EUA
Dados do Ipea indicam que São Paulo e Santa Catarina respondem por 52% do impacto econômico do tarifaço imposto pelos EUA. O levantamento, baseado em exportações de 2024, mostra que máquinas, carnes e metais lideram os setores mais afetados. Para cooperativas do Sul e Sudeste, o
A Cooperativa Central Mineira de Laticínios (Cemil) viu, em março, o preço do leite em pó cair 12% no mercado spot. O motivo? A demanda externa encolheu depois que os EUA anunciaram tarifa de 25% sobre o aço, o alumínio e uma lista de 59 produtos brasileiros. O caso da Cemil não é isolado. Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em abril, revelou que São Paulo e Santa Catarina concentram 52% do impacto total do tarifaço dos EUA. São Paulo responde por 28% do efeito; Santa Catarina, por 24%.
O estudo do Ipea, que usou dados da balança comercial de 2024, projeta uma perda potencial de US$ 3,2 bilhões em exportações brasileiras para os EUA. Desse total, US$ 1,66 bilhão recai sobre os dois estados. Em São Paulo, os setores mais expostos são máquinas e equipamentos (30% das exportações paulistas para os EUA) e produtos químicos (18%). Em Santa Catarina, carnes de aves e suínos (35%) e motores elétricos (12%) lideram a lista.
Segundo o Ipea, o impacto sobre o PIB brasileiro seria de 0,15 ponto percentual, mas com diferenças regionais significativas. Em Santa Catarina, a perda pode chegar a 0,4% do PIB estadual. Para o cooperativismo catarinense, que responde por 18% do PIB do estado, o efeito é duplo: cooperativas agroindustriais (como a Aurora e a Copérdia) e metalmecânicas (como a Cooperativa dos Metalúrgicos de Joinville) estão na linha de frente.
O tarifaço foi anunciado em fevereiro pela administração Trump, com base na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962, que permite ao presidente impor tarifas por razões de segurança nacional. O governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, anunciou em março a abertura de consultas na Organização Mundial do Comércio (OMC) e a aplicação de tarifas retaliatórias sobre 22 produtos americanos, incluindo etanol e carne suína.
Para as cooperativas, o cenário exige movimento duplo. De um lado, buscar novos mercados, a China e a União Europeia aparecem como alternativas para carnes e suco de laranja. De outro, renegociar contratos com compradores americanos que ainda não acionaram a cláusula de força maior. A Cooperativa Agroindustrial de São Paulo (Coagro), que exporta suco de laranja concentrado para a Flórida, já negocia com um trader europeu para redirecionar 40% do volume previsto para 2026.
Em Santa Catarina, a Cooperativa Central Aurora Alimentos anunciou em abril que vai ampliar em 15% a capacidade de armazenagem de frango congelado, sinal de que aposta na manutenção dos embarques para os EUA, mas com margem menor. O presidente da Aurora, Neivor Canton, afirmou em nota que "a tarifa reduz a competitividade, mas não inviabiliza o negócio".
O que o tarifaço muda no dia a dia do cooperado
O produtor rural associado a uma cooperativa que exporta para os EUA sente o efeito no preço recebido. No caso do frango catarinense, o valor médio pago ao avicultor caiu 8% entre fevereiro e abril, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). A explicação é simples: a cooperativa repassa parte da tarifa para o produtor para não perder o contrato.
Para quem não exporta, o efeito é indireto. O excedente de carne suína que não vai para os EUA pressiona o mercado interno. Em março, o preço da carcaça suína no atacado caiu 5% em relação a janeiro, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Cooperativas do Sul que vendem para o mercado doméstico ganham margem, mas perdem em escala.
Setores mais expostos: máquinas, carnes e metais
O Ipea detalhou os 10 setores mais afetados pela tarifa. O ranking é liderado por máquinas e equipamentos (US$ 680 milhões em exportações ameaçadas), seguido por carnes de aves (US$ 420 milhões) e produtos siderúrgicos (US$ 350 milhões). Para o cooperativismo, os dois últimos são os mais sensíveis, porque envolvem cadeias longas de pequenos produtores.
Em São Paulo, as cooperativas metalúrgicas do ABC paulista, como a Cooperativa de Trabalho dos Metalúrgicos de São Bernardo, já registraram queda de 10% nos pedidos de componentes para máquinas agrícolas. Em Santa Catarina, a Cooperativa dos Suinocultores de Chapecó estima que 30% da produção de carne suína destinada aos EUA terá de ser redirecionada até o fim de 2026.
O que fazer: estratégias de curto e médio prazo
A Confederação Nacional das Cooperativas (OCB) recomenda que as cooperativas afetadas busquem a Câmara de Comércio Exterior (Camex) para pleitear linhas de crédito especiais. Além disso, sugere linhas de crédito para cooperativas exportadoras e a diversificação de mercados via missões comerciais para o Oriente Médio e o Sudeste Asiático.
Em médio prazo, a saída é verticalizar a produção. Cooperativas que processam a matéria-prima antes de exportar, como a Cooperativa Central de Laticínios de São Paulo (CCLSP), conseguem margem para absorver tarifas de até 15%. Acima disso, a conta não fecha.
Perguntas Frequentes
Quais estados são mais afetados pelo tarifaço dos EUA?
São Paulo (28% do impacto) e Santa Catarina (24%) lideram, seguidos por Rio Grande do Sul (12%), Paraná (9%) e Minas Gerais (7%), segundo o Ipea.
O tarifaço já está valendo?
Sim. As tarifas de 25% sobre aço e alumínio entraram em vigor em 12 de março de 2026. A lista de 59 produtos adicionais foi aplicada a partir de 1º de abril.
Como o cooperativismo pode se proteger?
Diversificando mercados (China, União Europeia, Oriente Médio), renegociando contratos com cláusulas de compartilhamento de tarifa e buscando linhas de crédito da Camex para capital de giro.
Qual o impacto no preço dos alimentos no Brasil?
Há pressão de baixa no curto prazo para carnes de frango e suína, com excedente interno. No médio prazo, o repasse pode ser menor se a demanda externa se recuperar.
O Brasil vai retaliar?
Sim. O governo anunciou tarifas retaliatórias sobre 22 produtos americanos, incluindo etanol e carne suína, com início em maio de 2026.