Safra e Produção

Tarifaço: impacto limitado na balança comercial brasileira, dizem especialistas

ResumoO tarifaço americano atinge apenas 18% das exportações brasileiras. Especialistas apontam impacto limitado na balança comercial do Brasil, com saldo devendo mudar pouco, embora a indústria nacional sofra efeitos negativos. A medida não altera significativamente o fluxo comercial total entre os países.

O tarifaço americano atinge só 18% das exportações brasileiras. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil explicam por que o saldo da balança comercial deve mudar pouco, mas a indústria sofre.

Renan Bittencourt
Renan Bittencourt Colunista de Carbono e Clima · 21 de julho de 2026 · 4 min de leitura
Tarifaço: impacto limitado na balança comercial brasileira, dizem especialistas

Tarifaço deve ter efeito limitado na balança comercial brasileira

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve provocar efeitos limitados sobre a balança comercial do Brasil. As medidas do governo Donald Trump afetam apenas 18% das exportações nacionais para o mercado estadunidense, segundo apuração da Agência Brasil.

Segundo especialistas, os setores que sentirão mais o impacto são aqueles com alta dependência do mercado americano e dificuldade de remanejar mercados, como máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis.

Por que o tarifaço não deve alterar o saldo da balança?

A pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Lia Valls, afirma que o tarifaço dificilmente alterará o desempenho agregado da balança comercial brasileira. "Alterar o saldo da balança, em termos macroeconômicos, é pouco provável. O nosso grande mercado realmente é a Ásia, principalmente a China. A participação das exportações para os Estados Unidos caiu para cerca de 9,4%", diz.

O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também descarta um efeito relevante sobre o superávit comercial. "O superávit comercial brasileiro é derivado exclusivamente das commodities. O tarifaço poupou justamente commodities com as quais o Brasil compete com os Estados Unidos, como soja, suco de laranja e carnes", explica.

O impacto real está na indústria

Para Castro, o maior prejuízo será para a indústria nacional, responsável pela produção de bens de maior valor agregado. "Nós temos um superávit comercial grande, mas um déficit comercial de manufaturados gigantesco. Esse déficit é que preocupa, porque é o setor manufatureiro que gera emprego no Brasil."

Ele afirma que as novas barreiras tendem a favorecer concorrentes internacionais: "Como a sobretaxa atingiu diretamente os produtos manufaturados, abre mercados para outros países que antes não exportavam esses produtos e agora passam a ocupar esse espaço."

Dados do comércio bilateral

No primeiro semestre de 2026, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o Brasil importou US$ 1,5 bilhão do mercado estadunidense a mais do que exportou. As trocas comerciais somaram US$ 36,4 bilhões no período, queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

As exportações brasileiras recuaram 13%, para US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos caíram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões.

Em junho, as exportações cresceram 3,7%, alcançando US$ 3,47 bilhões, mas o resultado foi sustentado pela alta de 11% nos preços médios. O volume embarcado caiu 6,6%.

O que está por trás das tarifas?

Na avaliação de Lia Valls, a escalada das tarifas deixou de seguir critérios econômicos e passou a incorporar argumentos políticos. "Quando ele [Trump] aumentou para 40%, os argumentos realmente eram muito mais de caráter político. Não tinha muito argumento econômico nessa história", diz.

Segundo a economista, temas como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o Pix e políticas ambientais passaram a ser utilizados como justificativas para ampliar as sanções comerciais.

Retaliação: risco ou solução?

O governo federal estuda recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica para responder ao tarifaço americano. Os especialistas, porém, veem poucos benefícios em uma retaliação.

Lia Valls avalia que o Brasil não dispõe de capacidade para impor perdas relevantes aos Estados Unidos. "O problema é que a gente não tem capacidade de retaliação contra os Estados Unidos. Se você não consegue causar um dano efetivo ao outro, acaba revertendo contra você. O ganho seria pequeno. O caminho é denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio", sugere.

José Augusto de Castro também considera que uma resposta tarifária tende a ser ineficaz. "Não acredito em retaliação. O comércio internacional é feito de negociações, não de retaliações. O Brasil não tem cacife para retaliar os Estados Unidos. Temos tudo a perder e nada a ganhar. Na teoria, a reciprocidade parece adequada, mas, na prática, é muito difícil implementá-la", adverte.

Quais setores ficaram de fora?

As tarifas foram impostas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Embora a alíquota-padrão seja 25%, em 24% dos produtos atingidos, chega a 50%.

Entre os setores mais afetados estão aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira. Já aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram de fora das sobretaxas.

Perguntas Frequentes

O tarifaço vai afetar o superávit comercial do Brasil?

Segundo especialistas, o efeito sobre o saldo agregado da balança comercial deve ser limitado, pois os EUA respondem hoje por cerca de 9,4% das exportações brasileiras.

Quais setores serão mais prejudicados?

Máquinas, aço, alumínio, calçados, automóveis e produtos de madeira estão entre os mais afetados.

O Brasil deve retaliar?

Os especialistas ouvidos recomendam cautela: avaliam que o Brasil não tem capacidade de impor perdas relevantes aos EUA e que o caminho mais adequado é levar o caso à Organização Mundial do Comércio.

Quais produtos ficaram de fora do tarifaço?

Aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja não foram atingidos pelas sobretaxas.

Por que as tarifas foram impostas?

Segundo Lia Valls, a escalada das tarifas passou a incorporar argumentos políticos, incluindo temas como decisões do STF, regulamentação de plataformas digitais, Pix e políticas ambientais.

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