Morre a demógrafa Elza Berquó, referência em estudos populacionais no Brasil
A demógrafa Elza Berquó, referência em estudos populacionais e crítica do racismo científico, morre aos 99 anos. Ela ajudou a fundar a demografia no Brasil, influenciou o Censo e defendeu o direito ao aborto legal.
A demógrafa Elza Berquó, uma das principais referências em estudos populacionais no Brasil, morreu em 30 de novembro de 2024, aos 99 anos, em São Paulo. A informação foi confirmada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), instituição que ela ajudou a fundar. Berquó deixa um legado que atravessa décadas de pesquisa sobre fecundidade, migração, saúde da mulher e crítica ao racismo científico.
Elza Berquó foi a primeira demógrafa brasileira a defender o direito ao aborto legal como questão de saúde pública. Em 1993, ela coordenou pesquisa do Cebrap que revelou que uma em cada cinco mulheres já havia realizado aborto no Brasil, dado que ajudou a pautar o debate nacional. Para a época, o número era explosivo: mostrava que o problema não era de conduta individual, mas de saúde coletiva.
Uma carreira dedicada à demografia
Nascida em 1925, Elza Berquó formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo (USP), mas logo migrou para a estatística e a demografia. Ela foi professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP e, em 1969, durante a ditadura militar, participou da fundação do Cebrap, ao lado de sociólogos como Fernando Henrique Cardoso. A criação do Cebrap foi um marco: o centro tornou-se referência em pesquisa social independente.
Na década de 1970, Berquó liderou estudos sobre fecundidade que mostraram a queda acelerada das taxas de natalidade no Brasil, antes mesmo da pílula anticoncepcional se popularizar (Cebrap, relatório de fecundidade, 1978). O dado contrariava a ideia de que a redução era puramente tecnológica e apontava fatores sociais, como urbanização e acesso à informação.
Contribuições ao Censo e à política pública
Berquó foi consultora do IBGE em sucessivos censos demográficos. Ela ajudou a incluir perguntas sobre cor e raça no questionário, o que permitiu medir desigualdades históricas. Em 2000, ela criticou publicamente a mudança na metodologia do Censo que, segundo ela, subestimava a população negra (Elza Berquó, entrevista à Folha de S.Paulo, 2000). A crítica foi acolhida e o IBGE ajustou os procedimentos.
Ela também foi pioneira em estudos sobre migração interna. Seus trabalhos mostraram que o fluxo do Nordeste para o Sudeste não era homogêneo: mulheres jovens migravam mais que homens, em busca de trabalho doméstico e industrial. Esse dado ajudou a formular políticas de assistência social nos anos 1980.
O combate ao racismo científico
Um dos legados mais fortes de Berquó foi a denúncia do racismo científico. Na década de 1990, ela publicou artigos mostrando como teorias eugênicas ainda influenciavam políticas populacionais no Brasil. Ela defendia que a demografia não podia ser neutra diante da desigualdade racial (Cebrap, debate sobre raça e demografia, 1995). Essa posição influenciou gerações de pesquisadores.
Em 2005, Berquó recebeu o título de Professora Emérita da USP. O reconhecimento veio tarde, como ela mesma ironizou em entrevista: "A USP demorou 30 anos para me dar o título, mas deu" trajetória de mulheres na ciência brasileira.
O legado para a demografia brasileira
Hoje, a demografia brasileira perde sua fundadora. Mas o que Elza Berquó construiu permanece. O Cebrap continua produzindo dados sobre população, e o IBGE mantém a tradição de consultar especialistas para o Censo. A discussão sobre aborto legal, que ela iniciou nos anos 1990, segue viva no STF e no Congresso.
Para quem estuda população, a lição de Berquó é clara: dado não é neutro. Ele pode escancarar desigualdade ou escondê-la. A demógrafa escolheu o primeiro caminho.
Perguntas Frequentes
Quem foi Elza Berquó?
Elza Berquó foi médica, estatística e demógrafa brasileira, considerada a fundadora da demografia no país. Ela foi professora da USP e cofundadora do Cebrap.
Quando Elza Berquó morreu?
Ela morreu em 30 de novembro de 2024, aos 99 anos, em São Paulo.
Qual foi a principal contribuição de Elza Berquó?
Ela ajudou a estruturar a demografia brasileira, influenciou o Censo do IBGE e foi pioneira em estudos sobre fecundidade, migração e racismo científico.
Elza Berquó defendia o aborto legal?
Sim, ela foi uma das primeiras intelectuais brasileiras a defender publicamente o direito ao aborto legal como questão de saúde pública, baseada em dados de pesquisa.
O que é o Cebrap?
O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) é uma instituição de pesquisa fundada em 1969, da qual Elza Berquó foi cofundadora.